NEM BEM E NEM MAL
Reconheço que não me foi fácil superar a
dor da separação nem tanto de entes queridos como também de prazeres fugazes e
vaidades pequenas.
Obtive da vida tudo que pude conquistar:
luxo, títulos e reconhecimento social. Não media esforços em se tratando de
galgar degraus que me alçassem o orgulho às alturas. Não possuo méritos aos
quais pudessem atribuir o acolhimento e compaixão que desfrutei, deste lado de
cá, ao acordar daquele mundo ilusório para a realidade desta outra vida.
De fato, pelo próximo, pouco ou nada
realizei. Por minha própria conta não me recordo de ter desviado um golpe feroz
contra um indefeso ou suprimido da penúria e da fome qualquer pobre alma. Se o
bem realizei foi pelas mãos de meus queridos filhos os quais, em verdade,
criaram-se sem pai. Porque pai amoroso, educador e generoso, esse também não
fui.
Assim, por tudo isso, o mal realizado, e o
bem omitido, me intrigou aquele amanhecer singelo, já distante no tempo, em que
fui visitado lá nas furnas em que minha pobre alma se encontrava por aqueles
seres afáveis e quase etéreis. Suas vestes resplandecentes e límpidas
contrastavam com a imundice à qual me habituara. O sorriso cândido em seus
lábios e o convite em seus braços a mim dirigidos despertaram-me a consciência
amargurada e pesarosa. A leveza e beatitude em seus gestos e semblantes
recordavam-me de que algo poderia haver alem daqueles sítios de fealdade e
solidão.
Atribuo à misericórdia divina e ás orações
de meus amados filhos que a seu pai nunca esqueceram o socorro que me fora
enviado. Quanto tempo perambulei lastimando e maldizendo este Deus que nunca
compreendi e julgava culpado pelo estado de penúria moral em que me metera.
Colocado em escolinha evangelizadora, onde rememorei
tal como as criancinhas o bê-á-bá cristão, encontrei-me com meus crimes e
culpas. Alojado em hospital de fartos recursos com os quais nunca sonhei,
reencontrei o equilíbrio de forças há muito perdido.
Hoje, aqui me encontro tal qual o filho
pródigo da parábola santa, dando graças a Deus pelo sofrimento reparador que me
limpou as vistas apagadas por grossas escamas da vida de ostentação e vaidades.
Só tenho a agradecer os préstimos de amor que recebi e aos meus filhos que
muito me amaram sem que eu merecesse.
A Deus e a eles o meu muito obrigado.
Rogério.
Psicografia recebida em Reunião de
Psicografia em 2015.
Médium: Ana Paula